17 de março de 2013

É mesmo o fim da picada


A desfaçatez do Congresso Nacional, em suas mais recentes eleições entre seus pares para o comando de postos internos à sua estrutura, há muito ultrapassou o limite da menor dignidade a valores de representatividade da maior parte da população. A indicação à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias de um líder religioso reacionário, racista e homofóbico, e que responde a processo por estelionato, ganhou considerável repercussão nas redes sociais. Mas está longe de ser caso isolado.
     Os votos de apoio e a omissão estratégica da base aliada ao governo já são notórios. Mais lamentável é ausência mesmo de uma única voz verdadeiramente representativa de oposição que marcasse presença, ainda que diante da derrota inevitável nas votações, em prol de uma indignação popular. Onde se mete o seu Aécio Neves, líder do PSDB no Senado, partido dividido e emudecido? Onde estão as lideranças paulistas mais preparadas, a se posicionar pelo Estado que já foi referência política no país? Onde estão discursos de políticos mais autônomos de partidos comprometidos com acordos financeiros ‘indivulgáveis’ por uma mídia nacional, não raro, tão silenciosa?
     Em meio à ausência de qualquer oposição vigorosa no Brasil e de certo marasmo do exercício mais contundente da imprensa, o jornalista Quartim de Moraes trouxe o ótimo artigo É o fim da picada neste fim de semana, em OESP (16/mar.). Merece ser lido. Um de seus aspectos interessantes é observar o quanto é sintomático o fato de o PT ter aberto mão de presidir essa Comissão de Direitos Humanos. A defesa dos direitos humanos foi uma das principais bandeiras do PT. “Mais importante agora, porém, é manter a base de sustentação no poder, mesmo que ao preço de deixar os direitos humanos aos cuidados do racismo e da homofobia”, comenta o ensaísta
     “O PT mudou muito, não depois de chegar ao poder, mas exatamente para lá chegar e se manter. No âmbito estritamente político, a maior mudança talvez tenha sido se dar conta de que, em vez de acabar com os ‘300 picaretas’ do Congresso Nacional – quem os denunciou foi o próprio Lula, no início dos anos 90 –, era muito mais esperto a eles se aliar. Nem que fosse necessário pura e simplesmente comprá-los, como foi desastradamente feito pela quadrilha de José Dirceu.
     De fato, para usar uma expressão bem ao gosto messiânico da liderança máxima petista, como nunca antes na História deste país 'a esbórnia sentou praça na política'. E tem planos expressos, pelo menos para os próximos 20 anos, de lá não sair.
imagem: a partir de foto de Augusto Areal

2 comentários:

  1. Maria Thereza Fink18 de março de 2013 14:46

    Parabéns Heitor!!!
    Sua análise traduz com clareza, dados, registros de fatos o que se passa na Instituição Legislativo/Patidária.
    Concordo plenamente que pelo mesmo desejo de poder não temos o execício de oposição tão necessário à democracia.
    Escrever e compartilhar conclusões nos desloca de posicionamentos subjetivos de vitimização.
    Com certeza abre caminhos...

    Maria Thereza Fink

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  2. Que bom tê-la por aqui, Thereza! Estamos certo tempo sem nos vermos, mas nossos olhares permanecem com muito em comum, não?
    Tens razão: o compartilhamento possibilita, ainda por cima, tal deslocamento. Conferir consistência a ele vem de nossa autonomia e subjetividade.
    É nesse exercício que nos vemos a caminho.
    Abração!

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